Manifesto

Por que este guia existe?

Não dá para viver apenas de símbolos e de uma opinião emprestada. Você deveria se expressar mais.

E não me entendam mal: símbolos importam. Eles comunicam pertencimento, aproximam pessoas de determinadas causas. O problema é quando eles são toda a sua bagagem.

Em se tratando de política, por exemplo, ser simplesmente “anti-algo” é de extrema ignorância e irrelevância. Para os gregos, Politiké dizia respeito aos assuntos da pólis, à vida em comum. Política, portanto, não exige unanimidade: ela existe justamente porque os assuntos públicos admitem visões diferentes e precisam ser deliberados.

Aqueles que, por sua vez, têm uma posição muito bem definida têm papel tão importante quanto. A discussão move. O óbvio precisa ser dito, sem soberba ou segundas intenções. Com o perdão do uso proveitoso da palavra, contribuir para que aqueles até então isentos tomem partido sempre será o mais gratificante exercício da política.

Por isso é tão importante ajustar os discursos e se expressar com as próprias palavras. É completamente compreensível admirar alguma outra pessoa porque ela é capaz de formular melhor um pensamento ou porque parece ter mais alcance, ou qualquer outra coisa do tipo. Mas política precisa, em algum grau, se tornar uma elaboração própria.

Não quero dizer que toda pessoa precise se transformar em comentarista, pesquisadora, candidata ou produtora de conteúdo. Nem que seja necessário ter uma resposta pronta para cada acontecimento. Mas existe uma diferença importante entre ainda estar aprendendo e nunca se permitir formular algo com a própria voz.

Assim como exercer o direito ao voto é importante para que sejam eleitos nossos representantes, permanecer consciente para percebermos quando eles já não nos representam mais também é de suma importância.

Nós, enquanto indivíduos, temos fome tal qual temos moral. E, portanto, somos capazes de conceber quando algo imoral é feito ou quando alguém — ou um conjunto de pessoas — passa a ter de conviver com a fome. E, para ambos os casos, se não nos posicionamos, pode-se subentender que compactuamos com esse cenário. O que quero dizer é: precisamos nos expressar mais.

A mesma tela que nos permite chegar a uma pesquisa do IBGE, a uma lei ou a uma sessão do Congresso também organiza uma sequência quase infinita de distrações, indignações e certezas instantâneas. Entretenimento não é o inimigo. Ele é necessário, pode ser inteligente e pode até abrir uma porta para temas relevantes. O problema é aceitar que, em uma vida cada vez mais mediada por telas, toda essa atenção seja entregue apenas ao que nos mantém ocupados — e nunca ao que nos ajuda a compreender o país em que vivemos.

Neutralidade não é ausência de escolha. E talvez não seja necessário tanto para que avancemos. É preciso recusar a ideia de que a nossa participação política pode se resumir aos adereços certos, a repetir a frase certa e a compartilhar o vídeo certo. Em algum momento, cada pessoa precisa decidir se quer apenas acompanhar a política ou se quer, de fato, fazer parte da conversa. E fazer parte da conversa exige voz própria. Ter posição não exige perfeição. Exige compromisso.